Wastland

A convite da querida Naísia, hoje fiz um programa que há muitos não fazia: Fui ao cinema. Sem dinheiro, sem trasporte e com muita preguiça, minhas aventuras cinematograficas ficam sempre resumidas sempre aos filmes do HD e da tv a cabo. Mas hoje, tudo foi diferente, Naísia ganhou um convite e fomos ao cine sesi ver Lixo extraordinário.

Devo dizer que o dia hoje estava perfeito para o programa: finalmente caiu uma chuvinha que amenizou o calor, eu tinha uma cerveja porter na bolsa (a queridinha  Gonzo, que hoje estava BEM mais gostosa), ainda tomamos um café no cinema pra completar o climinha.

O filme, mais exatamente, o documentário Lixo Extraordinário está concorrendo ao Oscar 2011 na categoria melhor documentário e merecidamente. Digamos que eu não seja uma pessoa lá muito sensível. na verdade a melhor definição que recebi foi “menina durona”, mas foi difícil não segurar o engasgo durante o filme.

Lixo Extraordinário acompanha a produção da série Wast land do artista plástico brasileiro Vik Muniz, realizadas entre 207 e 2008, no aterro sanitário  jardim Gramacho jardim é um nome bem estranho para um aterro sanitário, no Rio de Janeiro, o maior aterro sanitário do mundo. Alias,  como viria a corrigir no final do documentário o presidente da associação de catadores, eles são catadores de MATERIAIS RECICLÁVEIS, afinal lixo é aquilo que não tem mais serventia, e o material reciclável ainda terá um novo futuro.

Vik Muniz é um artista plástico Paulista erradicado em NY, e é um dos  se não O artista artistas plásticos brasileiros vivo mais conceituados no mundo das artes atualmente. Infelizmente só ficou mais conhecido pelo grande publico brasileiro ( e olha que nem tanto) pela abertura da novela das 9h da Globo, Passione.

Vik Muniz pretendia retirar do lixo um pouco de um mundo de arte e reverter a renda dessa arte em recursos para essa comunidade. Ele foi com uma ideia fixa de que encontraria ali algo muito próximo de um estado primitivo do ser humano, seres sem autoestima,  altamente marginalizados na sociedade.

Sempre olhei com maus olhos essa chamada “arte social” de explorar a pobreza como forma de arte, mas não fazer nada para reverter aquele quadro. Não há beleza na miséria. E explorar a imagem da miséria para autopromover uma imagem de socialmente responsável, sendo que não se fez nada para mudar a realidade daquele individuo é tão  reprovável quanto ignorar a existência desta miséria. Mas esse não é o caso deste documentário.

Ao chegar ao Aterro, eles descobriram uma associaçao de catadores, e a figura de Tião, que viria ser muito importante ao longo da história, e que alias, rendeu uma das fotos mais bonitas, Marat Tião.

Tião conta no documentário que já leu diversos livros que encontrou no lixo, entre eles Príncipe de Maquiavel, Schopenhauer e Nietzsche, que alias, segundo o próprio é seu autor favorito. Seu sonho é construir uma biblioteca na associação, com os livros que encontra no lixo.

A primeira impressão que Vik e sua equipe tem ao chegar ao jardim Gramacho  é de que todos são muito felizes ali, uma impressão muito diferente do que eles imaginavam. Pessoas alegres e orgulhosas de seus trabalhos mas, ao passar dos dias de filmagem, quando os trabalhos vão se aprofundando, fica claro que aquela alegria é “artificial” , quase uma forma instintiva de se proteger da realidade em que vivem.  E surge a primeira duvida se aquele projeto seria positivo para aquela sociedade.

Neste ponto foi impossível para mim nao lembrar do ultimo capitulo de “as boas mulheres da china” da radialista chinesa Xiran ( e que em breve farei um review aqui). Surge o questionamento de que será que tira-los daquela realidade que eles conhecem como “única” e mostra-los um mundo inteiro que eles possivelmente jamais terão não tiraria deles aquela felicidade-artificial em que viviam? ou será que aquelas mentes precisavam ser “chacoalhadas”?

O processo criativo em que o artista plástico envolve as personagens de suas obras é tocante. Aquelas pessoas que antes imaginavam-se como nada, agora se tornavam obras de arte em escalas descomunais. A arte toca a vida dessas pessoas, que antes não compreendiam o que se passava e agora começam a REdescobrir seu valor como seres humanos. O documentário procura mostrar exatamente este perfil, do ser humano, mesmo chegando em uma escala social tão baixa como a do que tira seu sustento do lixo, tira seu alimento do lixo, ainda sim, ao contrario do que imaginamos(nós, maioria da população), mantém seu orgulho  e sua ética inabalável. O processo do criar artístico, do fazer artistico vai acrescentando a eles um valor inestimável.

Não vou contar mais detalhes para não estragar as surpresas do filme. Mas este Marat inesperado foi leiloado em Londres pela bagatela de 100mil reais, e o dinheiro revertido em um centro de aprendizado e um caminhão para a associação de catadores.

e como diz Vik, no fim do filme: Melhor não ter nada, e querer ter tudo, do que ter tudo e não querer nada. por que enquanto houver querer, haverá valor na vida. .. ou algo por aí.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s